• Alexandre Sammogini

Entrevista: Recuperação lenta e incertezas persistem para a economia brasileira


Em entrevista exclusiva para o Blog Abrapp em Foco, o Diretor Presidente da Previ-Ericsson, Rogério Tatulli analisa a recuperação do mercado, sobretudo, da Bolsa doméstica, nos meses de abril e maio. Apesar dos resultados positivos, o gestor, que também é Diretor Suplente da Abrapp, prevê que os mercados continuarão instáveis em decorrência do ritmo mais lento e incerto de recuperação da economia brasileira.


Ele aponta ainda para o risco de um otimismo exagerado com a Bolsa e outros ativos de risco e revela que a entidade que dirige tem optado por alocações mais defensivas, aproveitando as oportunidades das NTN-Bs mais longas. Tatulli fala também da vantagem dos multimercados, que podem alternar diferentes classes de ativos e, com isso, podem alternar os riscos, desde que os gestores tenham uma estratégia mais vencedora. Leia a seguir a entrevista na íntegra:


Boa recuperação em abril e maio

A Bolsa doméstica teve uma boa recuperação nos meses de abril e maio, mas ainda está negativa no ano. Teve valorização de 10,25% em abril e 8,57% em maio. Apesar disso ainda está caindo cerca de 24% até agora. Acredito que ainda teremos instabilidade pela frente. Até que o cenário fique mais claro, ainda vamos sofrer um pouco mais.


Maior volatilidade

Em abril houve uma retomada forte, acho que até um pouco exagerada. Em maio foi mais comedida. Em junho já estamos com maior volatilidade. O mercado já começou a desconfiar da recuperação dos meses anteriores. Temos de aguardar os balanços das empresas do segundo trimestre. A economia real terá uma recuperação lenta.


Otimismo está exagerado

Acho que em alguns momentos há um otimismo exagerado, que não tem fundamentos, essa é a minha opinião. Acredito que a retomada da economia não vai ocorrer rapidamente e será desigual em cada país. A OCDE está projetando uma queda do PIB mundial entre 6% e 8%, mas acho que as economias maiores tendem a sofrer menos, ou seja, elas devem se recuperar mais rapidamente.


Risco de efeito rebote

No Brasil a recuperação será mais lenta. Os governadores estão permitindo a volta às atividades, mas pode ocorrer o que se chama de segunda onda de contágio. Alguns lugares do norte e nordeste, como Ceará e Pará, estão sofrendo mais. No estados do sul aparentemente a pandemia está mais controlada. São Paulo não sabemos ainda, aqui no estado temos uma grande dimensão, maior que vários países. Mas pode ocorrer o que se chama de efeito rebote, ou seja, uma segunda onda.


Agenda de reformas?

Outra incógnita é a questão das reformas. A equipe econômica conseguirá interagir com o Congresso para avançar com as reformas estruturais? Agora está claramente em segundo plano a agenda, e não poderia ser diferente. Mas quando a pandemia for controlada, haverá clima para retomar a agenda? O ambiente social e político voltou a se acirrar e isso tira a tranquilidade.


Investidor pessoa física

Com o juro mais baixo, o investidor pessoa física continua no risco, continua indo para a Bolsa. Existe um fluxo de investimentos para a renda variável. Mas isso não quer dizer que a Bolsa seja o melhor lugar. Acho que os multimercados são mais interessantes porque podem operar com moedas e juros. A alternância de risco das diferentes classes é mais interessante neste momento, pode até correr risco de Bolsa ou taxas de juros também. Mas os multimercados podem dividir os riscos, inclusive com investimentos no exterior.


Investimentos no exterior

Independente do dólar, acho que os investimentos no exterior são uma boa opção, porque há muitas empresas que não temos aqui. Você tem por exemplo, uma Astrazeneca, que está desenvolvendo a vacina de COVID-19 e tantas outras empresas e setores que não estão presentes na Bolsa doméstica.


Previ-Ericsson

Ficamos mais defensivos em maio e junho. Fomos ampliando um pouco a carteira de títulos públicos, aproveitando as oportunidades. Também reduzimos um pouco as posições em crédito privado, mas com muita cautela. Quando surgem boas oportunidades com as NTN-Bs mais longas, estamos aproveitando para proteger a carteira, para reforçar o que chamamos de carteira de ALM. Até o final do ano, iremos apenas realizando ajustes nas posições.


Multimercados

Apesar de gostarmos dos multimercados, não estamos ampliando as posições nesta classe de ativos. Estamos sim olhando e monitorando os gestores externos, vendo quem não sofreu tanto, quem está se sobressaindo. É importante realizar um monitoramento mais próximo neste momento de pandemia e crise. Realizamos calls mais frequentes com os gestores. Estamos participando de diversas lives. Não estamos ainda no pós-COVID, estamos no meio do caminho.


Planos BD e CD

Nosso plano de benefício definido teve retorno de 1,46% em abril e 0,84% em mai. Com isso já reverteu a queda de março e no ano está positivo em 0,89%. Mas ainda abaixo da meta atuarial, que está em 1,89%. Já o plano CD sofreu mais março, mas recuperou 4,40 em abril e 3,23% em maio. Com isso, reduziu as perdas para 8,34% negativos atualmente. Estamos mais atentos para o plano CD neste momento para fazer possíveis ajustes de gestores e de classes de ativos. Vamos tentar reverter o desempenho negativo, mas sem movimentos bruscos e sempre com o foco no longo prazo.


Não temos déficit

Não temos déficit no plano BD. Ao contrário, continuamos com bom superávit. O que aconteceu é que o superávit que estava acima de 25% das reservas, caiu um pouco, mas já voltou a recuperar. O superávit serve pra isso mesmo, é um colchão que serve para absorver o impacto de momentos como esse que estamos vivendo.


Foco no longo prazo

É um momento muito difícil. É o maior efeito destrutivo da economia da história de nosso país. Não imaginávamos o desdobramento da pandemia. Mas ainda bem que já começamos a recuperar. O positivo de nosso sistema é realmente o longo prazo. O resultado agregado de março, que estava negativo em R$ 73 bilhões, já subiu para R$ 66 bilhões. Em maio, já haverá uma melhor recuperação. Nosso plano CD é bastante novo, tem apenas 5 anos, e uma longa história pela frente. E temos certeza que os resultados de longo prazo serão muito positivos, basta contar com paciência e estômago frio.


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