• Alexandre Sammogini

Entrevista: Nem desespero e nem fogos de artifício


Em entrevista exclusiva ao Blog Abrapp em Foco, o Diretor Presidente da Fundação Real Grandeza, Sérgio Wilson Fontes, relata a recuperação da rentabilidade dos ativos das carteiras em abril e maio. A queda verificada em março de 9% negativos agora foi reduzida para 2%. Apesar da excelente recuperação, o dirigente mantém a serenidade e enfatiza o longo prazo. “Somos corredores de maratona. Não é uma corrida de 100 metros rasos. Temos de pensar no longo prazo, estamos mirando um horizonte daqui a 50 anos ou mais”, disse.

Sérgio Wilson, que também é Diretor Executivo da Abrapp, fala ainda sobre o cenário de incertezas para o país que, segundo ele, ainda está no meio da crise sanitária, o que deve continuar afetando a retomada da economia. No meio das incertezas, um elemento parece mais certo: a manutenção dos juros em níveis reduzidos e, por isso, ele alerta que as alocações de maior risco vieram para ficar. Leia a seguir a entrevista na íntegra:

Crise é didática A crise teve um componente extremamente didático. De um lado vieram os críticos, quando chegou a pandemia e a crise em março. Eram uma espécie de “engenheiros de plantão” que reclamaram do aumento do risco. E agora com a recuperação, vieram os fogueteiros, que já estão comemorando. Mas nem um lado e nem outro têm razão. Temos de continuar olhando para o longo prazo.

Aumento da exposição em Bolsa No ano passado não tínhamos muita opção. Todos os especialistas indicavam que era necessário aumentar o risco. Chegamos às menores taxas de juros de nossa história, com uma tendência ainda declinante. Na época, a média de alocação do sistema em renda variável era de apenas 7% a 8% do patrimônio total, ou seja, muito pouco. Bem menor que os mercados mais desenvolvidos e menor também que os países da América Latina. Então, começamos a promover o aumento da exposição em Bolsa.

Superávit no final de 2019 No final de 2018, tínhamos apenas 10% de nosso patrimônio alocado em renda variável. Fomos aumentando ao longo de 2019, até chegar ao máximo de 22%. Fechamos o ano passado com um excelente retorno e superávit de R$ 420 milhões em nosso maior plano, que é de benefício definido. O superávit só não foi maior porque aproveitamos para reduzir a taxa atuarial do plano BD de 5,6% para 5% ao ano. Esse ajuste consumiu cerca de R$ 1 bilhão das reservas, mas era muito necessário.

Queda e forte recuperação Com uma maior alocação em renda variável, sentimos um forte impacto em março. Nossa rentabilidade global registrou 9% negativos naquele mês. Mas a recuperação em abril e maio foi bastante forte também. E agora estamos caindo apenas 2% negativos no ano. Ou seja, já recuperamos quase 70% da queda. E o déficit momentâneo que verificamos no mês de março já caiu para menos da metade agora.

Não é para comemorar A boa recuperação de abril e maio ainda não é para ser comemorada, para soltar fogos de artifício. Somos corredores de maratona. Não é uma corrida de 100 metros rasos. Temos de pensar no longo prazo, estamos mirando um horizonte daqui a 50 anos ou mais. E nossa política de investimentos vale para 5 anos, conforme determinação da Resolução CMN n.4.661/2018. Não dá pra ficar desesperados na primeira queda e nem eufóricos na primeira subida.

Incertezas Nesse momento ainda não temos uma direção clara para os mercados. O Brasil ainda não superou a pandemia. Estamos ainda na curva de subida do número de casos e mortes. Não sabemos ainda até onde irá a crise sanitária. E tudo indica que a economia ainda vai sofrer um pouco mais antes de se recuperar.

Risco veio para ficar O que parece que não dá pra voltar atrás é a questão do maior risco que veio para ficar. Estamos vendo os juros zerados nos Estados Unidos. Já estavam baixos antes, mas agora, estão ainda mais reduzidos. E aqui a Selic deve chegar a 2,25%. São os menores de nossa história. E tudo indica que devem ficar nesse patamar, por causa do cenário recessivo e, quando voltarem a subir, não deve ser nada muito expressivo. Até o investidor pessoa física ficou na Bolsa doméstica também.

Reforço das consultorias O que fizemos na metade de 2018 foi reforçar nosso time de consultorias externas. Contratamos mais uma consultoria doméstica e outra internacional (ler mais). Estamos sempre nos capacitando cada vez mais com nosso equipe interna.

ALM prejudicado Nesse momento não dá pra fazer ALM [Asset Liability Management] ou para mudar o que já tínhamos, pois o cenário ainda está incerto. Para fazer um bom ALM, precisamos de bons “inputs”, mas como prever o PIB, o câmbio e outros indicadores? Ainda não temos segurança para isso, vamos esperar um pouco mais. O Brasil ainda está no meio da crise sanitária.

Multimercados Estamos pensando em como melhorar nossa alocação. Estamos avançando em um processo de seleção de gestores de fundos multimercados. Temos um limite aprovado de nossa política de chegar a até 4% do patrimônio em multimercados. Não temos nada nessa classe de ativos. Acho que não vamos chegar a todo esse limite até o final do ano, mas vamos começar em breve.

Renda variável Ao mesmo tempo, vamos buscando um melhor posicionamento de nossa carteira de renda variável, visando uma melhoria da gestão interna e externa. Não temos muitas novas alocações porque nosso plano é maduro, tudo que entra vai para o pagamento de benefícios. É como se fosse um jogo zero a zero. Mas estamos procurando melhorar nossas posições. Estamos também estudando investimento no exterior, mas por enquanto, não pensamos em começar de imediato nessa classe. Provavelmente um pouco mais pra frente.

Empréstimos a participantes Reabrimos nossos empréstimos a participantes. Agora é tudo virtual. Também promovemos o aperfeiçoamento do regulamento. A reabertura foi para atender as necessidades dos participantes ativos e assistidos. É uma carteira importante para os participantes e também apresenta risco baixo para a entidade.

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